Caçadores de caloteiros

O investidor Guilherme Ferreira passou boa parte de 2012 lendo uma seção do jornal que, normalmente, seus pares ignoram — as colunas sociais. Dos jornais de Pernambuco, mais especificamente. O objetivo não era saber as últimas da alta sociedade pernambucana, mas ganhar dinheiro.

Sócio da Jive, empresa especializada em correr atrás de caloteiros, Ferreira buscava informações sobre um usineiro que, há dez anos, devia 11 milhões de reais a um banco — sua usina faliu e ele não tinha nenhum bem em seu nome, mas continuava dando festas e frequentando eventos sociais com um “sorrisão” no rosto.

Nada, portanto, que lembrasse um sujeito na rua da amargura. Até que, no fim do ano, ele foi pego. Mais de 500 pessoas haviam sido convidadas para o casamento de sua filha. Um dos investigadores da Jive acabou descobrindo que quem estava pagando tudo era uma empresa sediada no Uruguai, que tinha como procurador no Brasil o tal usineiro — e era “sócia” de outra empresa com sede na casa dele.

“Isso mostrou que ele tinha bens em seu nome fora do país e poderia pagar a dívida”, diz Ferreira. Procurado pela Jive, o empresário acabou fechando um acordo neste ano e pagando parte da dívida.

Há cada vez mais empresas atuando como a Jive no Brasil. Elas são especializadas em comprar carteiras de crédito de altíssimo risco. Os devedores, nesses casos, estão inadimplentes há meses ou anos, e os bancos e as empresas que emprestaram dinheiro a eles já desistiram de recebê-lo de volta.

Para tentar reverter parte do prejuízo, vendem os créditos por valores baixíssimos — em geral, menos de 5% do valor original — para firmas como a Jive. Essas empresas tentam recuperar o dinheiro e lucrar com a diferença entre o que pagaram e o que recebem. O retorno médio nessas operações, segundo os compradores, é de 30%.

“Os bancos cobram e colocam os nomes em cadastro negativo, mas depois de seis meses já provisionaram toda a perda e não têm estrutura para continuar essa cobrança”, diz André Oliveira, diretor da Hipoges, criada na Espanha e instalada no Brasil há dois anos.

Companhias como a Hipoges contratam empresas de call center e escritórios de advocacia especializados em cobrança, que chegam a colocar até 1 000 profissionais para disparar ligações e tentar chegar a um acordo com os caloteiros. Quando a dívida é grande, podem atuar como detetives até descobrir uma forma de receber. 

Esse é um mercado de 90 bilhões de reais nos Estados Unidos. No Brasil, cerca de dez empresas atuam no ramo. O volume de créditos podres comprados por elas cresceu 60% nos últimos cinco anos e chegou a 16 bilhões de reais, de acordo com estimativas da RCB Investimentos, que também atua nesse mercado.

Vender esses empréstimos vencidos ajuda os bancos a tirar os créditos podres de seus balanços, ganhar algum com a venda da carteira e, ainda por cima, obter um benefício fiscal — prejuízos em empréstimos geram um crédito tributário.

Fora da caixa

O crédito mais disputado vem de grandes operações de varejo — em setembro, por exemplo, o banco Votorantim leiloou uma carteira de 2 bilhões de reais em financiamentos atrasados de veículos. Os compradores preferem esses créditos porque são massificados, o que facilita a análise por filtros estatísticos (como perfil de devedores e região) e a cobrança telefônica.

Mas a retomada precisa acontecer antes de cinco anos de atraso, pois é quando o nome sai do cadastro negativo — e o devedor perde o estímulo para pagar e limpar seu nome. Para dívidas empresariais, cujos valores são maiores e a cobrança se arrasta anos na Justiça, usar a criatividade é o único recurso à disposição dos caçadores de caloteiros.

As táticas são as mais diversas. A principal é provar que o caloteiro tem dinheiro para pagar as dívidas. “Já confrontamos o devedor com fotos de viagens e iates que vimos no Facebook da esposa dele”, diz Renato Toledo, sócio da RCB. Isso pode ser feito de maneira, digamos, fora da caixa.

Uma das operações mais bizarras de recuperação de crédito aconteceu na pequena Manga, no norte de Minas, onde a garantia de um empréstimo de 6 milhões de reais eram 4 000 cabeças de gado, identificadas por chips instalados nas orelhas dos animais. O pecuarista não pagou a dívida e o gado sumiu do monitoramento.

Um analista da Jive localizou o registro da fazenda em cartório e encontrou no endereço 600 bois com as orelhas cortadas. “Tivemos de contratar 20 tropeiros para mover o gado”, diz Alexandre Cruz, sócio da empresa. Os outros bois foram achados na fazenda do cunhado do devedor, também sem as respectivas orelhas. Para se livrar dos caçadores, o caloteiro fez um acordo e entregou os bois.

Fonte: Revista Exame

 

Muito interessante!

Realmente o profissional de cobrança tem que ter o espírito investigativo.

Muitas vezes devemos busca ir além do “arroz com feijão”, usando a criatividade e nos adaptando as diversas situações que podem surgir na recuperação de créditos.

Saudações,

Dr. Denis Siqueira 

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Compra e venda de dívidas, um mercado de R$ 100 bilhões

 

Em parecer dos consultores Ernesto Guedes e Edmilson Varejão, a Tendências Consultoria observa que, em maio de 2011, no balanço do sistema financeiro, o Banco Central indicava a existência de R$ 139,2 bilhões em créditos em atraso, de 61 a 360 dias, de um total de R$ 1,8 trilhão. O levantamento indica também, a partir de dados da KPMG, o volume estimado de R$ 180 bilhões em empréstimos cancelados. A partir desses valores, o mercado de cessão de crédito no Brasil é hoje de R$ 100 bilhões, podendo atingir R$ 300 bilhões.

Essa atividade, afirma a Tendências Consultoria, é vantajosa para todas as partes envolvidas e a Economia como um todo, na medida em que reduz o impacto negativo da inadimplência. Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), criados no Brasil em 2001 pela Resolução 290/01 do Conselho Monetário Nacional (CMN), são importantes veículos nesse mercado. “Como compradores das dívidas e recebíveis, os FIDCs conseguem maior eficiência com a obtenção de ganhos de escala e especialização na cobrança da dívida, já que essa é a sua atividade-fim”, explicam os consultores.

Vantagens para as empresas

Para as empresas cedentes, trata-se de excelente negócio, aponta o parecer. Ao vender a carteira de crédito vencida e não paga, as empresas diminuem os riscos associados ao não pagamento de seus recebíveis e criam uma fonte alternativa de receitas. “Para as empresas de pequeno e médio portes, a cessão proporciona alternativa viável de obtenção de fundos, frente ao tradicional crédito bancário”, ressalta a análise. “Por meio das operações de FIDC, as empresas originadoras dos créditos (que têm recebíveis registrados no balanço) securitizam as suas carteiras de crédito, em um processo pelo qual um grupo relativamente homogêneo de ativos é convertido em títulos mobiliários passíveis de negociação. É, portanto, uma forma de transformar ativos individuais relativamente ilíquidos em títulos mobiliários líquidos, transferindo os riscos associados a esses ativos para os investidores que compram esses títulos.”

Para as empresas que têm alto comprometimento com dívidas bancárias e grande geração de recebíveis, o FIDC é uma opção para amortizar suas dívidas, permitindo que o balanço espelhe melhores condições financeiras. Afinal, a empresa efetuará uma diminuição de seu passivo bancário, através da redução do ativo de curto prazo, ou seja, cedendo seus recebíveis.

Benefícios para os consumidores

Os consumidores também são beneficiados pela cessão de crédito: “Os bons pagadores e aqueles inadimplentes com intenção de pagar são afetados favoravelmente pelo mercado de cessão de crédito, que, em última análise, reduz a inadimplência com a implementação de mecanismos mais eficazes de cobrança”, explica o parecer da Tendências Consultoria. O desestímulo à inadimplência reduz o preço dos produtos ou serviços para os bons pagadores. É importante salientar, por outro lado, que não há prejuízo para os consumidores em decorrência da cessão de suas dívidas. Todos os direitos originários do devedor são preservados, havendo apenas a alteração do respectivo credor.

Legalmente, basta carta ao consumidor, remetida ao endereço constante do cadastro da empresa cedente, para cientificá-lo da cessão do crédito. Essa norma legal também viabiliza economicamente o negócio. O entendimento de que a cessão apenas teria validade mediante a comprovação de que o devedor recebeu a notificação praticamente inviabilizaria a atuação dos FIDC, anulando todos os efeitos positivos dos serviços que prestam.

Uma necessidade das instituições financeiras

Segundo os consultores, para as instituições financeiras a criação de liquidez para créditos vencidos não é somente uma opção, mas sim uma necessidade para o funcionamento do mercado. “Como bancos e financeiras seguem regras de contingenciamento de capital determinadas pelo risco da sua carteira, a cessão da parte inadimplente pode significar menor comprometimento financeiro. O elevado volume de cessão de carteiras de crédito por instituições de menor porte ocorrido no Brasil após a crise de 2008 evidencia essa necessidade”.

Um mercado em evolução

A cessão de crédito surgiu há pouco mais de duas décadas, conforme as instituições financeiras decidiram concentrar-se em suas atividades-fim, cedendo as dívidas inadimplentes ou problemáticas para empresas especializadas. A expansão do crédito nos anos recentes e o aumento da inadimplência depois da crise 2008 reforçou a expansão do mercado.

O parecer da Tendências Consultoria revela essa evolução em diversos países. Os créditos duvidosos da Espanha aumentaram de € 20 bilhões em 2007 para mais de € 100 bilhões em 2010. Nos Estados Unidos, cresceram de US$ 20 bilhões em 2000 para US$ 120 bilhões em 2010.

No Brasil, esse mercado ganhou expressão há pouco mais de cinco anos, quando teve seu crescimento acelerado pela expansão do crédito, que também acarretou aumento do número de devedores e dívidas inadimplidas.

Fonte: Tendências Consultoria

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Cessão de crédito atenua impacto da inadimplência

 

O mercado de cessão de crédito, que contribui para reduzir os índices de inadimplência, movimentou, em 2010, cerca de R$ 400 milhões no Brasil. Dentre os motivos para algumas empresas venderem suas carteiras estão: necessidade de injeção de caixa; foco no negócio, considerando que a cobrança não integra o core business da maioria das firmas com dívidas a receber; custo do capital; e a dificuldade de se receber dívidas vencidas há mais tempo.

A venda ou compra de créditos vencidos (Non Performing Loans ou NPLs) funciona da seguinte maneira: os vendedores transferem o risco para os compradores, aplicando os recursos obtidos na venda na sua principal atividade. Os compradores maximizam o valor das carteiras por meio de processos especializados de cobrança, tecnologia apropriada e gestão focada na recuperação do crédito. A atividade teve origem há mais de 20 anos, por consequência de crises financeiras, como a dos Estados Unidos, em meados dos anos 80, e a dos Tigres Asiáticos e México, na década de 90. No Brasil, o início foi em 1998, com grande atividade até 2002. Em 2006, asvendas foram retomadas em ritmo acelerado, atingindo mais de R$ 17 bilhões em 2007, R$ 6 bilhões, em 2008 e 2009, e R$ 400 milhões em 2010.

Em nosso país, o crédito, um dos motores da economia, ainda está em patamares baixos. Representava, tradicionalmente, apenas 15% do PIB, mas já ultrapassou os 40%. Contudo, ainda está aquém de numerosos países, inclusive emergentes. De todo modo, o crescimento é interessante. Com ele, porém, a inadimplência também aumentou. Em janeiro deste ano, chegou a R$ 130 bilhões, sendo 45% de crédito ao consumidor.

Em 2001, a CVM(Comissão de Valores Mobiliários) regulamentou a constituição e funcionamento dos Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios (FIDCs), que adquirem as dívidas de instituições financeiras para serem negociadas com os devedores originais. Foram criados, então, procedimentos bem claros, tornando as negociações e transações mais simples e diretas. Os FIDCs têm inúmeras vantagens do ponto de vista tributário, permitindo o barateamento do crédito e maior circulação de dinheiro. Existe a preocupação quanto à regulamentação da CVM de número 489, que estabelece critérios para aplicação de procedimentos contábeis relativos à convergência das normas locais para o IFRS (Internacional Financial Reporting Standards), em virtude da exposição dos riscos de crédito. Isso foi sentido em 2010, principalmente pelos problemas do Banco Panamericano.

As vendas das carteiras no Brasil têm se concentrado em cartões de crédito e empréstimos pessoais, seguidos por financiamento de veículos e faturas telefônicas. A principal função da cessão de crédito é permitir que as empresas se capitalizem, aumentando sua liquidez, o que, por consequência, gera impacto positivo na economia.

 

Fonte: Administradores.com

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Cobrar dívidas ruins se torna bom negócio no Brasil

Venda de dívidas

Venda de dívidas

“Boas Festas e Feliz 2012!”, diz um cartão de Natal que, sem dúvida, vai levar aos que o receberem mais alívio que alegria.

“Para você que mudou o rumo de sua vida e conseguiu acertar velhas pendências, desejamos um 2012 repleto de conquistas, sucesso e tranquilidade financeira”, escreve a Recovery do Brasil, empresa de cobrança de dívidas, em um e-mail aos clientes que quitaram suas dívidas.

Os bancos brasileiros têm emprestado muito nos últimos anos, e esse boom traz muitas novas oportunidades para a cobrança de dívidas, atividade que pela primeira vez começa a tornar-se um grande negócio no Brasil.

Pode-se dizer que o aumento da cobrança de dívidas é o preço do crescimento. Depois de anos de instabilidade econômica e hiperinflação, o volume de crédito no Brasil quase dobrou nos últimos dez anos, e agora corresponde a quase 50% do PIB. O total de empréstimos atingiu R$ 2 trilhões em novembro, segundo o Banco Central. E 5,6% desse total, ou cerca de R$ 112 bilhões, tinham mais de 90 dias de atraso.

O rápido crescimento vem trazendo algumas preocupações de que possa haver uma bolha de crédito no Brasil, especialmente nos empréstimos a pessoas físicas, onde a taxa de inadimplência é muito maior do que para empréstimos empresariais. A inadimplência para pessoas físicas subiu para 7,3% em novembro, enquanto para as empresas o índice foi de 4%.

Mesmo sem superaquecimento, são abundantes as oportunidades para as empresas de cobrança de empréstimos vencidos.

Salvatore Milanese, sócio da firma de auditoria e contabilidade KPMG, disse que o crescimento dos empréstimos no Brasil “não é preocupante agora, mas a taxa de inadimplência está se deteriorando em algumas áreas, principalmente a das pessoas físicas”.

Segundo a KPMG, o total das dívidas em atraso no Brasil pode alcançar R$ 330 bilhões; desse total, os bancos já disseram que não vão recuperar cerca de R$ 180 bilhões, tornando essa quantia potencialmente disponível para ser vendida aos cobradores de dívidas.

O Banco Santander Brasil S.A. vendeu cerca de R$ 16 bilhões em créditos inadimplentes em 2011, quase quatro vezes a quantia vendida em 2010. Esses empréstimos, equivalentes a cerca de 9% do total de empréstimos do Santander Brasil, são a pior parte da sua carteira – aqueles que não receberam nenhum pagamento por mais de um ano.

Segundo comunicado enviado à agência Dow Jones, o Santander informou que “as condições atuais do mercado explicam a aceleração da venda de suas carteiras [de créditos inadimplentes], resultando em maior eficiência”.

Os bancos costumavam vender carteiras de créditos com mais de cinco anos de atraso, mas com o crescimento do mercado de cobrança de dívidas, estão começando a vender carteiras mais recentes.

“Agora é possível comprar carteiras de empréstimos que têm três anos de atraso”, disse Bruno Bossi, um executivo da Palato Velum Credit Management, firma brasileira especializada em recuperação de créditos inadimplentes.

A Velum, fundada em janeiro de 2009, comprou mais de R$ 3 bilhões em carteiras de crédito inadimplentes até agora, segundo o site da empresa. “A tendência é que esse segmento continue a se expandir em um ritmo semelhante ao dos empréstimos no Brasil”, disse Bossi.

Segundo Milanese, da KPMG, os bancos vendem os créditos inadimplentes por cerca de 1% a 6% do valor de face. As empresas de cobrança de dívidas podem ganhar até cinco vezes seu investimento dentro de dois ou três anos, muitas vezes recebendo muito menos que o montante total do empréstimo.

Os princípios econômicos desse boom da cobrança de dívidas também são atraentes para os devedores, que muitas vezes estão ansiosos para retirar seu nome das listas negras compiladas pelas firmas brasileiras de proteção ao crédito.

Um professor de São Paulo devia R$ 500 reais, incluindo capital e juros vencidos, e acabou pagando menos da metade desse valor. “Paguei para tirar meu nome dos arquivos do serviço de proteção ao crédito”, disse o professor.

Por enquanto, os bancos internacionais como Santander Brasil têm sido os mais inclinados a vender suas carteiras de créditos inadimplentes, segundo a KPMG. Os bancos brasileiros, que têm redes maiores, preferem cobrar suas dívidas por conta própria.

“Essa é uma decisão estratégica tomada por cada banco”, disse Antonio Bornia, vice-presidente do terceiro maior banco do país, o Bradesco. “Nós preferimos fazer a recuperação de empréstimos inadimplentes usando a nossa própria estrutura, enquanto outros bancos preferem terceirizá-la.”

Fonte: The Wall Street Journal

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Santander vende R$ 16 bi em crédito

 

O Santander Brasil vendeu, em 2011, um volume de carteiras de crédito podre sem precedentes para o mercado brasileiro. Dívidas vencidas há pelo menos 360 dias de pessoas físicas e empresas num total de R$ 16 bilhões terão sido levadas a leilão pelo braço brasileiro do banco espanhol quando o ano acabar.

A cifra de 2011 equivale a quatro vezes os R$ 4,2 bilhões vendidos em 2010, enquanto, em 2009, a instituição levou a leilão R$ 2,8 bilhões. O valor deste ano é próximo a 9% do total de ativos de crédito que constavam do balanço do banco do terceiro trimestre.

O Santander é o único entre os grandes bancos do país que costuma levar suas carteiras de créditos podres a leilão para recuperar um valor ínfimo do que a inadimplência dos clientes levou embora. As carteiras vendidas nesses leilões, do qual participam como compradores fundos e bancos principalmente estrangeiros em busca de ativos de alto risco, são constituídas de operações de crédito já lançadas como perda, de acordo com as regras do Banco Central (classificados como risco “h”). Ou seja, os ativos já foram removidos do balanço. Portanto, a receita dos leilões, nos quais as carteiras são negociadas com deságio de pelo menos 85%, representa receita na veia para o vendedor.

Os bancos não costumam revelar quanto têm de créditos podres, mas pode-se supor que Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco e Caixa, que são ainda maiores, carreguem volumes mais impressionantes.

O Santander não explica o motivo para ter ampliado a venda de carteiras vencidas, mas é sabido que o banco tem buscado desfazer-se de ativos para levantar recursos em várias de suas filiais para fortalecer a matriz, na Espanha, que terá de atender a novos requerimentos de capital em breve.

Um participante dos leilões do Santander fez uma estimativa que considera conservadora de que o banco pode ter obtido, em média, 2% do valor de face dos créditos vendidos, o que daria uma receita da ordem de R$ 300 milhões.

Segundo informações de mercado, atualmente o Santander tem três vendas de carteira em andamento. O banco informa que em dezembro venderá carteiras com valor de face total de R$ 5 bilhões (incluídos no cálculo de R$ 16 bilhões). Para 2012, o banco carregará ainda R$ 9 bilhões de operações que planeja “passar para frente”.

O negócio de venda de empréstimos não performados (NPL, na sigla em inglês) ganhou tal dimensão no Santander que a instituição vai criar uma securitizadora própria, a exemplo da Ativo S.A., do Banco do Brasil. A intenção é começar a operar sob a nova estrutura entre o terceiro e quarto trimestres do ano que vem.

De acordo com Luciane Petrangelo, gerente de gestão de prejuízo e venda de carteira, os créditos negociados ao longo de 2011 eram, em sua maioria, dívidas de pessoa física, como empréstimo pessoal, operações de financiamento ao consumo. Antes da integração dos sistemas do Real e do Santander, concretizada em fevereiro, a venda das carteiras dos dois bancos era feita de forma separada, mas desde então não é mais possível determinar em qual das duas casas o empréstimo foi originado, informa.

Uma única venda realizada este ano, com uma carteira de valor de face de R$ 4 bilhões, era referente a dívidas de cerca de 1 milhão de CPFs. “Só não cogitamos a venda de crédito imobiliário, de leasing e agrícola”, diz Luciane. A venda de cada tipo de carteira rende um valor diferente ao banco, varia caso a caso, mas ela não revela.

De acordo com estimativas da KPMG, considerando-se carteiras vencidas entre dois e três anos, o valor pago pelo investidor que compra ativos de crédito ao consumidor (CDC) oscila entre 1% e 5% do valor de face (original do crédito), enquanto o intervalo para crédito corporativo vai de 3% a 10% e para cartão de crédito pode ficar entre 2% e 6%. Os melhores preços são pagos em créditos com garantia, como financiamento de veículos, em que o deságio pode ser de apenas 85% para os melhores riscos. Um investidor que participou de leilões do Santander diz que os deságios foram superiores a esses, na média.

Marcelo Malanga, diretor de negócios de recuperação do Santander, diz que o banco é criterioso na hora de selecionar os compradores das dívidas, e também quanto às práticas de cobranças exercidas. “É importante qualificar o investidor, porque é ele quem vai lidar com o nosso cliente, que vai cobrá-lo. Nós não vendemos o cliente, vendemos o contrato”, disse Malanga a diversos investidores em evento promovido nesta semana pela KPMG, em São Paulo. “Se o preço estiver longe da curva que projetamos como interessante, cancelamos a venda.”

De acordo com um grande investidor, os preços subiram neste ano, com o interesse de novos compradores atraídos pelos bons índices de recuperação de créditos. (Colaborou Vanessa Adachi)

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Crédito e cobrança