Vendas blindadas

Na divulgação dos resultados da Gafisa do primeiro trimestre deste ano, o aumento do número de distratos foi um dos itens que mais chamou a atenção. O volume de cancelamentos de contratos saltou de R$ 101 milhões no último trimestre de 2012 para R$ 191 milhões nos três primeiros meses de 2013. A justificativa para o aumento expressivo, segundo o diretor presidente da Gafisa, Duilio Calciolari, está no “alto volume de entregas de unidades no segundo semestre de 2012″. Mas esse não é um problema só da Gafisa. A incorporadora Viver, por exemplo, viu os distratos somarem R$ 56,8 milhões no primeiro trimestre e contribuírem para a piora da receita líquida da empresa, que caiu 72% em relação ao primeiro trimestre de 2012.

A notícia ruim é que os cancelamentos de contratos ainda devem aumentar entre as empresas do setor, e não apenas na Gafisa e na Viver. É o que apontam os especialistas ouvidos pela reportagem. Há muitos imóveis em fase final de construção e o distrato ocorre justamente no momento em que o cliente é repassado ao banco. O analista Marcelo Motta, do banco J.P. Morgan, lembra que nem todas as incorporadoras reportam ao mercado a quantidade de distratos feitos, o que dificulta a obtenção de dados mais precisos. “É difícil saber ao certo quanto os distratos aumentaram, mas quase todas as empresas reportaram esse problema. Os distratos subiram em comparação a 2012 e vão continuar em alta no segundo e terceiro trimestres”, analisa Motta.

As causas para os distratos são variadas, mas a principal – e a mais relatada no setor – é a baixa qualidade das vendas feitas no estande, principalmente durante o boom imobiliário, até 2010. O superintendente de crédito imobiliário do HSBC, Jaime Pessoa Chiganças, afirma que o banco “ainda sente os problemas da qualidade da venda que aconteceu no início da obra. Tem acontecido muito de compradores enfrentarem dificuldade para tomar crédito no banco na hora do repasse”.

Quando o cliente não é aprovado e o distrato acontece, a construtora se vê obrigada a revender a unidade, mas isso nem sempre é um problema. Se a venda for feita em pouco tempo, a empresa pode até ter auferir ganhos, devido à valorização do imóvel. A Gafisa, por exemplo, afirma que do total de distratos no primeiro trimestre, 40% das unidades foram revendidas no mesmo período.

O problema aparece quando a revenda não é tão ágil e o imóvel começa a gerar custos com condomínio, impostos, energia, água e manutenção. “Nos últimos três anos, os preços subiram e resolveram a maior parte dos problemas. Mas agora vamos entrar numa fase mais morna, os problemas vão aparecer de forma mais gritante, e um dos problemas que mais afetaram os resultados das empresas listadas foi o aumento dos distratos, que não devem diminuir”, avalia Pedro Klumb, presidente da empresa de finanças imobiliárias MSFI.

Chiganças calcula que, em média, 20% dos compradores não passam pela análise de crédito do banco no repasse. Esse percentual foi confirmado por outros bancos e é considerado a média de mercado. Por isso, já é consenso no setor, inclusive entre os bancos, que o momento exige vendas com mais qualidade, ou seja, com análise mais rigorosa de crédito e de documentos – uma análise semelhante à que os próprios bancos fazem no momento do repasse. E já é possível ver grandes incorporadoras apertando o cinto na hora de fechar os contratos.

Nova mentalidade

De acordo com Marcelo Motta, as maiores empresas do setor vêm se preocupando em aumentar o rigor da análise de crédito no plantão de vendas, pois já perceberam que se a venda não for bem-feita, pode resultar num distrato. “As companhias estão tirando proveito da menor velocidade de vendas do mercado e estão escolhendo clientes com melhor perfil de crédito”, diz o analista. “Quando o mercado estava muito aquecido, algumas empresas não queriam perder tempo com a venda. Havia uma demanda tão grande que os incorporadores achavam que era mais fácil fazer uma avaliação pouco detalhada para comercializar mais rápido.”

Pedro Klumb relata que as incorporadoras que antes faziam uma análise frágil ou simplesmente deixavam de analisar o cliente chegaram a ter ineficiência de até 40% no momento do repasse. Hoje esse cenário está se invertendo. De acordo com Chiganças, do HSBC, nos atuais lançamentos as construtoras de forma geral já estão se especializando mais, contratando profissionais com conhecimento do mercado financeiro e utilizando ferramentas que antes não eram usadas.

Tudo indica que a mentalidade da maioria das empresas vem mudando, como corrobora Marcelo Motta: “A PDG está bastante preocupada com uma venda de mais qualidade, assim como a Rossi, a Gafisa, a Tenda, a MRV e muitas outras. Basicamente, elas têm optado por ferramentas de credit scoring”. Esse instrumento faz uma análise estatística da capacidade de pagamento dos clientes, que são então classificados por meio de notas. “As ferramentas são fechadas, por isso não se sabe ao certo como elas funcionam. Em geral, elas analisam todo o movimento financeiro do cliente – se usa cartão de crédito, se paga em dia, se tem cheque sem fundo etc. – e a partir desse comportamento geram uma nota, que será usada para aprová-lo ou não”, resume Chiganças.

A Brookfield é uma das empresas que adotou a solução. “Usamos o modelo de credit scoring da Serasa Experian, mas, ao mesmo tempo, buscamos desenvolver nosso sistema interno”, diz Alessandro Vedrossi, diretor-executivo de incorporação e negócios da Brookfield. Ele explica que a ferramenta é usada para fazer uma primeira triagem dos clientes e para definir o que será exigido na análise. “A pessoa que tiver uma nota muito alta pode ficar isenta de uma análise mais profunda e a que tiver a nota muita baixa pode ser barrada logo no início”, exemplifica Vedrossi.

Além de analisar o cliente no plantão, a construtora costuma reavaliar o desempenho dessa análise depois de seis meses. “Quando o cliente tem, por exemplo, nota superior a 600, nós exigimos pouca coisa dele na venda. Passados seis meses, analisamos a situação dele de novo. Se houver inadimplência semelhante à de um cliente nota 400, posso ter que rever meus parâmetros”, completa. Com a reavaliação, a empresa vai fazendo correções de rumo na análise inicial, tornando o sistema cada vez mais apurado.

Conflito de interesses

Vale ressaltar que, embora a preocupação em fazer uma venda bem-feita seja positiva, esse cuidado pode acabar entrando em conflito com a pressão por vendas, que compele o incorporador a ser menos rigoroso. Pedro Klumb, da MSFI, conta o caso de um empreendimento do programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) que tinha 400 unidades, das quais 380 foram vendidas, mas 80% dos clientes não foram aprovados no repasse bancário. “Fomos ver as condições de venda que a empresa praticou: renda muito próxima do limite exigido para se enquadrar no programa e zero de entrada. Nesse caso, qualquer problema faz com que o cliente se desenquadre. É um caso típico de venda inadequada”, relata.

Klumb lembra ainda de uma incorporadora que havia contratado uma imobiliária que vendia, coletava as assinaturas, mas demorava dois meses para enviar os cadastros para a análise de crédito. À medida que os cadastros foram chegando, foi constatado que os clientes não tinham a menor condição financeira de bancar a compra. “O crédito foi negado para quase todos. Aí a imobiliária dizia ao incorporador que estávamos negando crédito para uma pessoa que já havia comprado e assinado. No lançamento seguinte, a incorporadora decidiu que só venderia após o crédito aprovado”, recorda.

A pressão comercial também pode acobertar algumas informações que precisam ser de conhecimento do cliente, segundo o presidente da Associação Brasileira dos Mutuários da Habitação (ABMH), Leandro Pacífico. Para ele, uma das causas do aumento do número de distratos é a má qualidade da informação passada ao cliente no momento da negociação.

“Às vezes, o corretor está despreparado e não informa tudo que deveria. Para bater metas de vendas, construtoras e corretoras acabam fazendo a negociação de forma apressada, para induzir o cliente a fechar o negócio”, afirma Pacífico. “Um exemplo: o corretor não avisa o cliente de que existe correção no valor do contrato. Obviamente que essa correção é devida, mas nem sempre ela é exposta. Os clientes precisam saber que a parcela de financiamento bancário será maior quando o imóvel ficar pronto.” Segundo ele, muitos compradores não têm conseguido aprovação no banco devido ao rejuste na parcela de financiamento.

Para Pedro Klumb, esse tipo de conflito sempre existirá. “Enquanto as imobiliárias fizerem a análise, a avaliação será ruim. O segredo para fazer uma venda disciplinada e que não torne o incorporador refém da imobiliária é ter um sistema eficiente e rápido, que dê retorno dentro de 15 minutos a uma hora”, opina o consultor, que atualmente trabalha na análise de crédito em cerca de 20 estandes pelo Brasil.

Alessandro Vedrossi, da Brookfield, garante que o sistema adotado pela incorporadora fornece uma resposta sobre a qualidade de crédito das pessoas em no máximo uma hora, de acordo com a documentação apresentada pelo cliente. “Hoje, usamos uma central interna de crédito com empresas terceirizadas, mas nosso objetivo é ter um departamento próprio de crédito, até para dar respostas ainda mais rápidas aos nossos clientes”, comenta o executivo.

Outra solução para os conflitos de interesse é a separação entre o departamento de vendas e o de crédito. “Quando esses dois departamentos atuam juntos, obviamente o pessoal do comercial quer agilizar a venda para bater a meta. Mas hoje essas duas áreas são separadas na maioria das empresas. Uma aprova o crédito e a outra, a venda”, conta Marcelo Motta, do J.P. Morgan. Para Vedrossi, ter um departamento de vendas misturado com o de crédito é o caminho para repetir erros do passado. “Eu tenho meu departamento comercial bem próximo do de crédito, mas eles são separados. Há empresas semelhantes a nós, mas muitas ainda não pensam assim”, diz.

Como vender bem

O primeiro passo para melhorar a qualidade das vendas é procurar fazer uma análise de crédito em conformidade com as exigências do banco escolhido pela construtora. Uma avaliação mais criteriosa não é garantia de aprovação no momento do repasse, mas pode reduzir o risco de desaprovação. Teotônio Rezende, diretor de habitação da Caixa Econômica Federal, afirma que “as incorporadoras são orientadas a fazer uma análise mais rigorosa logo no começo, porque elas conhecem nosso modelo de analisar renda e cadastro. Elas sabem que não adianta fazer uma venda malfeita”.

Algumas empresas têm procurado os bancos em busca de informações tanto sobre o processo de avaliação que será feito no momento do repasse quanto sobre o histórico do próprio cliente. Isso já acontece no Banco do Brasil (BB), por exemplo. “Previamente, podemos avaliar a planilha de comercialização do empreendimento e fazer uma avaliação da situação daqueles clientes. Damos alguns indicativos e apontamos os que têm alguma restrição no BB”, explica o gerente geral de crédito imobiliário do BB, Hamilton Rodrigues da Silva. “É apenas uma análise prévia que temos feito em poucos plantões, por enquanto.”

Outra recomendação para evitar problemas após a venda é ser flexível na tabela de valores. “Vamos imaginar, por exemplo, intermediárias dez vezes maiores que a parcela mensal. De onde o cliente vai tirar esse dinheiro?”, questiona Pedro Klumb. Para ele, é importante ouvir a contraproposta do cliente, cruzá-la com a proposta do empreendedor e simular condições alternativas, de acordo com o perfil de cada comprador.

Vale lembrar que uma venda bem-feita deve ir além da análise de crédito. Os seguros, por exemplo, são outra variável que pode impedir o cliente de obter o financiamento bancário ao final da obra. “Muita gente não consegue ser aprovada no banco porque não foi aprovada pela apólice do seguro que cobre morte e invalidez. Pode ser que a pessoa tenha passado da idade, ou que tenha alguma doença preexistente. Tudo isso precisa ser checado no momento da venda, e não depois”, ressalta Klumb.

Os documentos também precisam ser cuidadosamente verificados. Paulo Moura, diretor-operacional da MSFI, alerta que, além dos documentos que evidenciem a capacidade de pagamento, é preciso avaliar até os documentos pessoais. “Uma coisa simples: estado civil. Às vezes, o homem se declara solteiro só porque a esposa está com problema na Serasa. Isso invalida o contrato. Quando chegar o repasse, ele não será aprovado porque o cônjuge tem restrição. Por isso, é preciso criar essa rotina de análise”, orienta Moura.

Ele acrescenta que a emissão do contrato é outro ponto de atenção. “As pessoas acham que qualquer um pode emitir um contrato a partir do momento em que se tem a minuta, mas não é bem assim. Quem emite contrato é advogado. O sistema gera um contrato e o advogado o analisa”, diz Paulo Moura. Ele relata que, para reduzir custos, muitas empresas não contratam o advogado e acabam cometendo uma enorme quantidade de erros. “São erros de valores, de dados, de assinatura, cláusulas repetidas e erradas, unidades vendidas duas vezes etc. Tudo isso é assinado e só se descobrem os problemas na hora do repasse”, lamenta.

Não ao especulador

Um último fator que merece atenção nos estandes de vendas é a presença de investidores especuladores, que, no final da obra, tentam revender os imóveis adquiridos anos antes. Na construtora CMO, de Goiânia, o diretor Marcelo Moreira conta que sempre busca investidores para os lançamentos, com uma ressalva: “Não aceito investidor com proposta de financiamento bancário, pois sei que, no final da obra, caso ele não consiga revender a unidade, fará um distrato. Somos mais criteriosos quando identificamos algum caso assim e chegamos ao ponto de limitar a venda em uma unidade por cliente, principalmente nos lançamentos”.

Na Brookfield, a compra é limitada a duas unidades por CPF, justamente para barrar os especuladores. “Nós fazemos produtos para o investidor que compra para alugar, no longo prazo. O que nós evitamos são as pessoas que compram para vender amanhã, mais caro”, pontua Alessandro Vedrossi. “Se a pessoa quiser comprar à vista, nós vendemos. Mas se for financiar, travamos: na aquisição da terceira unidade temos uma tabela diferente, com entrada mais alta e pelo menos 50% financiado durante a obra”, completa.

Para José Eduardo Varandas, mestre e engenheiro civil do Núcleo de Real Estate (NRE) da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), é notório que as incorporadoras estão preterindo investidores em detrimento da demanda primária, que no Brasil ainda é o maior filão. “Como é uma venda com fundamento, o risco de distrato é menor no caso da demanda primária”, diz Varandas. “Mesmo que o perfil do projeto seja voltado para investidores, as empresas têm limitado a compra. A preocupação é diminuir a presença deles no mercado.”

Fica claro que fazer vendas mais assertivas não é um processo simples e requer, além de ferramentas eficientes de análise, profissionais bem treinados e uma boa dose de equilíbrio na gestão de diferentes departamentos e de empresas terceirizadas. Pedro Klumb ressalta que é comum que o incorporador se sinta inseguro ao implantar uma análise mais rigorosa no estande pela primeira vez, já que a velocidade de vendas cai um pouco. No entanto, ele garante: os que já fazem isso há algum tempo percebem que vale a pena trocar velocidade de vendas por mais qualidade de vendas e mais segurança na aprovação do banco no futuro

Fonte: Revista Construção Mercado

 

Na análise de crédito comercial já sabemos muito bem que “Pior do que não vender, é vender e não receber”. 

O segmento imobiliário tende a seguir o modelo atual das concessionárias e agências de veículos, com isso ganharão em qualidade e agilidade na análise de crédito. 

Saudações,

Dr. Denis Siqueira

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Concessão de empréstimos pede eficiência na análise de risco

Com o crescimento progressivo nos volumes de concessão de crédito no Brasil, as empresas estão buscando melhorar na assertividade da concessão e agilidade na análise do crédito, não somente para novos clientes como também para clientes antigos. Técnicas multivariadas vêm sendo difundidas para a construção de modelos de previsão de risco de crédito que, baseadas tanto em informações cadastrais quanto no histórico de relacionamento do cliente na empresa, predizem um comportamento padrão de risco. O objetivo do artigo é propor uma sistemática para construção de modelos de previsão de risco de crédito baseados em dados comportamentais (“behavioral scoring”), utilizando um processo de modelagem híbrida de dois estágios com regressão logística e redes neurais e avaliar seu desempenho. Todas as etapas de construção do modelo são discutidas detalhadamente, sendo abordados desde o planejamento e definições do modelo até a análise da validação da fórmula de pontuação. O modelo foi aplicado em uma amostra de 9.070 clientes de uma instituição financeira de atuação nacional.

“Behavioral scoring”

Vários autores dividem os modelos de “credit scoring” em duas categorias principais: (i) “application scoring” – pontuação de um novo cliente, que considera variáveis cadastrais como sexo, idade, escolaridade e indica um fenômeno estático – e (ii) “behavioral scoring” – pontuação de um cliente antigo, que considera variáveis comportamentais, como movimentação financeira, quantidades de parcelas pagas em atraso, além das variáveis cadastrais, e indica um fenômeno dinâmico. Assim, a principal diferença entre esses modelos está no conjunto de variáveis disponíveis para estimar a qualidade de crédito do cliente, ou seja, quanto mais precoce o estágio do ciclo de crédito, menor o número de informações específicas sobre o cliente de que dispõe a instituição.

Para construção de modelos “behavioral scoring” é necessário escolher um ponto de observação, sendo que é preciso haver dados sobre o comportamento do cliente antes e após esse ponto. O período de tempo de observação anterior ao ponto é chamado por alguns pesquisadores de período de desempenho ou de observação. As características observadas durante esse tempo que precede o ponto de observação serão utilizadas para o desenvolvimento do modelo. O período após o ponto de observação é o período de resultados, e é nesse período que o cliente é classificado como bom ou mau pagador, dependendo de seu estado no final.

Modelagem híbrida

Em mineração de dados, a abordagem de hibridação tem sido uma área de pesquisa ativa para melhorar a classificação, a previsão e o desempenho de modelos de pontuação de crédito. Em geral, o modelo híbrido é baseado na combinação de duas técnicas diferentes, podendo ser técnicas de agrupamento ou de classificação.

Modelos híbridos vêm sendo utilizados, principalmente, para melhorar inconvenientes das técnicas de inteligência artificial, já que a primeira técnica servirá para orientar o processamento da segunda, diminuindo o tempo de processo e facilitando, por meio do primeiro método, a identificação da relevância das variáveis significativas.

Para demonstrar a viabilidade e eficácia da proposta da modelagem híbrida em duas etapas, é apresentada na íntegra do trabalho uma lista de alguns artigos que usaram modelos híbridos para a pontuação de crédito, apesar de ainda haver poucos estudos enfocando esse desenvolvimento.

O presente artigo, portanto, se apoia na conclusão de Tsai e Chen (2010), usando o resultado da regressão logística como nós de entrada da rede neural, garantindo uma melhor interpretação do modelo e menor tempo de processamento, além dos benefícios já mencionados. As duas técnicas que serão utilizadas seguem descritas na sequência.

Regressão logística

A regressão logística tem por objetivo encontrar um modelo explicativo para o comportamento da probabilidade de sucesso, em termos das variáveis preditoras. Dessa forma, a regressão logística é especificamente desenhada para prever a probabilidade de um evento ocorrer, sendo essa probabilidade classificada entre o intervalo 0 e 1.

Pesquisadores destacam a técnica de regressão logística, pela possibilidade de contornar certas restrições encontradas em outros modelos multivariados. Contudo, o modelo de regressão logística é sensível à colinearidade entre as variáveis.

Portanto, de maneira geral, a regressão logística permite identificar e remover características que já foram detectadas por outras variáveis e assegura que toda característica importante do cliente permaneça na sua pontuação.

Redes neurais

As redes neurais são sistemas de inteligência artificiais, inspirados no funcionamento de um cérebro humano, contendo propriedades particulares como capacidade de aprendizado, de generalização ou de organização dos dados. Além da capacidade de aprendizado, onde os erros de saída retornam ao início da rede e são ajustados adequadamente, a rede neural tem outra vantagem sobre as técnicas estatísticas, de não necessitar de uma suposição inicial de um modelo probabilístico preestabelecido para estimar os parâmetros de um suposto modelo.

Apesar de as redes neurais terem se estabelecido como alternativa aos tradicionais modelos estatísticos e de muitos estudos na área de crédito terem concluído que as redes neurais superam os tradicionais métodos estatísticos em termos de precisão de classificação, pesquisadores alertam para a aplicação de redes neurais em problemas que necessitem previsão e classificação, com interesse na precisão da classificação e não na interpretação das variáveis preditoras.

Por isso, nesse artigo, propõe-se uma abordagem de modelos híbridos, para melhorar inconvenientes das técnicas de inteligência artificial, diminuindo o tempo de processo e facilitando, por meio do primeiro método, identificar a relevância das variáveis significativas.

A sistemática para o desenvolvimento do modelo

Para a elaboração do modelo a ser testado, sete etapas principais foram seguidas. i) Planejamento e definições: definição do produto e mercado para o qual o modelo será desenvolvido; finalidade do modelo; definição de inadimplência; definição do horizonte de previsão do modelo. ii) Identificação das variáveis preditoras: identificação das variáveis disponíveis no sistema da empresa. iii) Amostragem e coletas dos dados: definição do período (histórico e performance) e tamanho da amostra; separação da amostra de análise e teste. iv) Análise dos dados: avaliação da consistência e preenchimento dos dados. v) Análise bivariada: agrupamento de atributos de variáveis; criação das variáveis “dummies”. vi) Obtenção da fórmula preliminar: escolha de técnicas quantitativas; determinação do software a ser usado; seleção das variáveis preditoras; verificação da suposição das técnicas. vii) Acurácia e validação do modelo: medição do índice de desempenho (KS e ROC) do modelo na amostra de teste.

Todos os passos para a obtenção do modelo foram abordados no artigo, na mesma sequência dos passos mostrados na sistemática, de forma que fiquem evidenciadas as etapas percorridas para a obtenção do modelo, tanto em relação à obtenção das variáveis e amostras quanto na abordagem das técnicas para a construção de um modelo de “behavioral scoring”, propondo um processo de modelagem híbrida de dois estágios com regressão logística e redes neurais.

Conclusões

Esse trabalho inova não só no detalhamento do processo de construção de um “behavioral scoring”, como também quanto à abordagem de modelos híbridos, que estão sendo recentemente estudados internacionalmente, sendo esse um dos precursores na apresentação dessa técnica com dados brasileiros. Dessa forma, o modelo aqui desenvolvido pode servir de apoio para pesquisadores e analistas de empresas que desejam desenvolver seus modelos.

A técnica de modelagem híbrida aqui desenvolvida foi condizente com estudos já realizados, apresentando superioridade à tradicional (regressão logística). Além disso, com o apoio dos resultados da regressão logística, como nós de entrada da rede neural, técnica que vem sendo cada vez mais utilizada, contornaram-se as características indesejáveis das redes neurais, como processamento lento e dificuldade na interpretação das variáveis. Cabe ressaltar que a busca por uma rede neural mais eficiente é de suma importância e depende da experiência do pesquisador, visto que algumas redes treinadas (RN1), tendo como nós de entrada os resultados da regressão logística, alcançaram os mesmos indicadores de eficiência da regressão logística, sendo aconselhável, nesses casos, o uso dos modelos mais simples que alcançam o mesmo resultado, ou seja, o modelo mais parcimonioso.

Portanto, a utilização de modelos de previsão de risco de crédito que utilizam as variáveis comportamentais dos clientes elimina a subjetividade da análise tradicional, aproveitando as informações ricas do comportamento do cliente que se encontram armazenadas em bancos de dados, muitas vezes inutilizáveis. Além disso, a padronização do procedimento de decisão e a velocidade na análise do crédito são ganhos que aumentam a rentabilidade da empresa, garantindo uma maior eficiência no atendimento dos clientes.

Monografia de Luciane de Godói Moraes, vencedora do 2º lugar na categoria B do IV Prêmio Febraban de Economia Bancária.
Trabalho na integra: Uma abordagem alternativa de behavioral scoring usando modelagem híbrida de dois estágios com regressão logística e redes neurais.

Fonte: Valor Econômico

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Normas criam linguagem acessível nas demonstrações contábeis

 

Elaboradas pelo Iasb (International Accounting Standards Board) na década passada, as normas IFRS visam instaurar uma linguagem contábil padrão no planeta, o que tornaria as informações mais acessíveis e transparentes em todas as operações. O Brasil passou a adotar as normas em 2007, primeiramente para as companhias abertas, que estão sob regulação da CVM. A adoção para as pequenas e médias no país veio em 2010. “Esta é uma norma para ser aplicável em torno de 95% das companhias ao redor do mundo”, disse David Tweedie, chairman do Iasb a respeito do IFRS-PME.

Para Robson Rodrigues, sócio de auditoria da Ernst & Young Terco, a consolidação das normas até mesmo para as pequenas e médias empresas é um caminho sem volta. “A perda de credibilidade em relação às demonstrações financeiras será a consequência natural para as pequenas e médias companhias que não se ajustarem às novas normas contábeis. As dificuldades principais estarão na obtenção de financiamentos com taxas reduzidas, parcerias com outra empresas ou sócios investidores”, afirma ele.

A adequação também contribui para eventuais decisões futuras, como, por exemplo, no caso de a companhia optar por ingressar no mercado de capitais, uma vez que o IFRS é uma exigência do órgão regulador dentro das boas práticas de governança.

Para a advogada Juliana Porchat de Assis, do escritório Trench, Rossi&Watanabe, todas as companhias devem adotar as novas normas, independente do fato de não haver punições específicas para pequenas e médias. “Os investidores estrangeiros já incorporaram as normas IFRS em suas políticas de compliance. É uma questão prioritária em casos de fusões e aquisições, principalmente por dar mais clareza e transparência aos agentes que não são residentes no país”, diz.

Com relação às punições previstas aos profissionais de contabilidade no caso de não cumprimento das regras (que vão da advertência até suspensão de um ano), a advogada desconhece casos desta natureza, mas não descarta ocorrências no futuro, quando estiverem mais disseminadas.

Ainda no campo legal, o advogado e contador Pedro Cesar da Silva, da Athros-ASPR, revela conhecer uma situação em que, durante um processo licitatório, uma concorrente ingressou com recurso contra a vencedora por esta não estar com suas demonstrações contábeis em conformidade com as novas normas.

Para o auditor Celso Malimpensa, da PriceWaterhouseCoopers, os balanços com base em IFRS são uma referência para os agentes financeiros na hora de analisar solicitações de crédito. “O detalhamento das notas explicativas de um balanço em IFRS é mais completo e traz mais informações sobre as operações e a forma que a empresa atua no mercado, o que ajuda a compreender melhor como é a sua exposição aos riscos”. Segundo Malimpensa, os profissionais que atuam nas áreas de crédito dos bancos estão familiarizados com a leitura em IFRS.

Curiosamente, apenas 25% dos bancos (os de capital aberto) elaboram seus balanços em IFRS. Esta flexibilidade é admitida pela Banco Central devido ao seu forte poder fiscalizador junto às instituições para verificação do níveis de exposição ao risco e informações de alavancagem. 

Fonte: Valor Econômico

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Experian paga R$ 3,1 bi para tirar bancos da Serasa

 

Em época de resultados magros, corroídos pela inadimplência em alta e quedas nos juros, os quatro maiores bancos privados do Brasil vão embolsar R$ 3,1 bilhões (US$ 1,5 bilhão), mais ajustes até o dia da conclusão do negócio. Esse é o valor que a britânica Experian vai pagar pela participação de 29,6% que Itaú Unibanco, Bradesco, HSBC e Santander têm na Serasa, um dos mais conhecidos birôs de crédito brasileiros. Com a compra, a Experian passa a ter 99,6% da companhia, que vale então cerca de R$ 10 bilhões.

É o Itaú que vai embolsar a maior parte, de R$ 1,5 bilhão, seguido do Bradesco, que leva R$ 790 milhões. A compra deve ser concluída até o fim do ano e já estava prevista no acordo assinado com a Experian em 2007. A empresa britânica podia, desde junho de 2012, exercer opção que permitia a compra da fatia dos bancos na Serasa.

O que chama atenção na transação é que o valor supera o que a Experian pagou por 70% da Serasa em 2007. À época, o desembolso foi de US$ 1,3 bilhão (ou R$ 2,3 bilhões). “A valorização é o resultado da rentabilidade e do crescimento da Serasa nos últimos anos”, diz Peg Smith, vice-presidente executiva da Experian global.

Segundo Smith, desde 2007, o crescimento da Serasa em receita tem ficado próximo de 20% ao ano. Em termos de resultado, o avanço anual tem sido, em média, de 30%. “Isso significa que a receita dobrou e a lucratividade quase triplicou desde que chegamos na Serasa.”

Nos 12 meses encerrados em março de 2012, a receita da Serasa foi de R$ 1,5 bilhão, crescimento de 23,7% na comparação com igual período do ano anterior. O lucro nesse período foi de R$ 207,8 milhões, avanço de 39% na mesma comparação.

Ricardo Loureiro, presidente da Serasa Experian, estima que a receita da companhia cresça pelo menos na mesma velocidade que o estoque de crédito nos próximos anos, percentual que deve ficar próximo de 15%.

Mesmo fora do controle acionário da Serasa, os bancos devem continuar sendo clientes do birô, prevê o acordo costurado com a Experian. “Os bancos não terão mais assento no conselho da companhia, mas seus conselhos vão continuar a ser ouvidos, já que eles são nossos principais clientes”, afirma Smith.

A aquisição também não trará mudanças para a direção da Serasa e muito menos para a rotina da empresa, afirma Loureiro. “A compra mostra a confiança de um investidor estratégico internacional não só no mercado brasileiro mas no trabalho que temos feita na companhia”, diz.

Criada em 1968, por iniciativa dos grandes bancos brasileiros, a Serasa servia para dar maior agilidade às decisões bancárias, em uma época em que nem se imaginava que o crédito poderia ganhar a importância que hoje tem na economia. O negócio que tornou a Serasa popular, porém, o cadastro de devedores com “nome sujo”, ou seja, que não pagaram suas contas em dia. A empresa também faz parte do grupo que vai operar o cadastro positivo, que teve parte da regulamentação aprovada na semana passada pelo governo.

A disparidade no preço da Serasa em 2007 e agora retrata também o avanço no crédito no Brasil. Para fins de comparação, a relação entre o estoque total de crédito e o Produto Interno Bruto (PIB) saltou de 31,7%, quando a Experian fez a primeira aposta, para 51% em agosto de 2012.

Ao mesmo tempo, o avanço da inadimplência na pessoa física, hoje próxima de patamares históricos, sustentará a demanda pelos serviços de avaliação de perfil do tomador crédito que a Serasa oferece nos próximos anos, avalia Smith.

A fatia de 0,4% que ainda não está nas mãos da Experian pertence a investidores independentes que não quiseram vender sua participação em 2007, afirma a executiva da Experian.

“A saída da Serasa é um movimento natural”, afirmou Rogério Calderón, diretor de controladoria do Itaú Unibanco, em teleconferência com jornalistas. “Somos clientes da Serasa, não fazia sentido manter capital na empresa”.

O Bradesco fez questão de deixar claro que a venda da participação na Serasa não tem relação com cadastro positivo. “A Experian decidiu comprar tudo, mas vamos manter todos os serviços que temos com a Serasa”, disse Luiz Carlos Angelotti, diretor executivo do banco em conversa com analistas.

Fonte: Valor Econômico

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Saiba como bancos decidem se clientes merecem crédito

 

Ao deixar o mutirão dos endividados no dia 26/04/2012, em São Paulo, onde esteve para renegociar os débitos e “limpar o nome”, Alessandro Prata, 36, não entendia por que um dos bancos não ofereceu “condições favoráveis” para o pagamento.

“Sou cliente há 20 anos, mas o banco não analisou isso. Eles só valorizam quem tem mais poder aquisitivo. Estou decepcionadíssimo.”

A indignação do vendedor é a mesma de muitos usuários do sistema financeiro que, nas últimas semanas, estiveram em bancos públicos e privados em busca de taxas de juros mais baixas em diversas linhas de crédito.

Ocorre que, em razão dos critérios usados pelas instituições para analisar o perfil de endividamento e o risco de calote de cada cliente, são poucas as pessoas que, de fato, conseguem se beneficiar das menores taxas.

Entre as características dos tomadores de crédito avaliadas pelos bancos estão: salário, idade, empregabilidade, comprometimento da renda com dívidas, volume de investimentos na instituição e histórico de pagamentos (se já passou cheque sem fundos ou atrasou prestações).

O cliente que tem mais de 30% da renda comprometida com dívidas costuma ser visto como de alto risco.

O banco tem modelos estatísticos que analisam, por exemplo, a probabilidade de um cliente que deu cheque sem fundos há dez anos ficar inadimplente hoje. “É uma chance pequena, mas, se ele fez isso há um ano, a probabilidade costuma ser maior”, disse Maria Dolores Oliveira, diretora de modelos analíticos da Boa Vista Serviços.

Segundo ela, uma informação bastante importante é se ocorreram diversas consultas de crédito em um período curto -significa que o cliente procurou recursos em diferentes bancos e lojas.

Além disso, a instituição considera quais são as chances reais de o cliente conseguir tratamento melhor na concorrência. Se o cliente recebe o salário em outra instituição ou tem investimentos na concorrência, o banco pode decidir oferecer mais vantagens para retê-lo -se o perfil dele interessar, claro. 

Negativo

Ricardo Loureiro, presidente da Serasa Experian, empresa de informações financeiras, afirma que um dos problemas no Brasil é a ausência de dados positivos compartilhados sobre o histórico de pagamento dos consumidores. Hoje, o banco analisa dados positivos disponíveis só em seu histórico.

“Até agora, os bancos e demais empresas de crédito acessam apenas informações negativas, sobre inadimplência, e não registros sobre os hábitos dos bons pagadores. Com a regulamentação do cadastro positivo [aprovado em 2011], os consumidores terão mais poder de barganha para exigir uma análise de crédito mais personalizada.”

Loureiro afirma que, hoje, os bons pagadores são punidos com altas taxas de juros em razão do calote dado nas instituições financeiras pelos maus pagadores.

Fonte: Folha de São Paulo

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Crédito e cobrança