Comparação de preços, pechinchas, pagamento à vista, uso do crédito com responsabilidade e dentro do que o orçamento doméstico permite. Essas são as regras da balconista Ireide Silva para não se endividar quando faz compras. “Estou fazendo mais pesquisas, procurando onde está mais barato, e só compro se dá no orçamento. Eu só tenho um cartão de crédito, sou bem controlada. Sempre que dá pago em dinheiro, faço tudo para não parar no SPC”, relatou. Ireide faz parte de um perfil de consumidor que está crescendo, segundo dados divulgados este mês pela Boa Vista Serviços, administradora do Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC).

De acordo com a administradora, o pagamento de dívidas no Recife cresceu 7,4% entre janeiro e julho deste ano em comparação com o mesmo período de 2012. Pernambuco mostra alta de 6,4% e a região Nordeste de 8,6%. A média da recuperação de dívidas no Brasil, neste mesmo comparativo, é de 4,2%. “Isso indica que houve, pelo menos neste ano, uma cautela maior entre os consumidores brasileiros no uso do crédito, eles também aproveitaram as boas condições do mercado de trabalho e juros mais baixos para pagar contas, renegociar dívidas”, explicou o economista da Boa Vista Serviços, Flavio Calife.

Se por um lado tem mais gente limpando o nome na cidade, por outro também tem mais gente entrando no SPC. O número de pessoas que não pagam suas dívidas no Recife aumentou 2%, no acumulado de janeiro a julho. É o caso da diarista Vera Lúcia Soares, para quem um assalto e o nascimento da neta atrapalharam o orçamento já apertado. Ela acabou sem pagar R$ 80 que devia a uma revendedora de roupas íntimas. “Só fui saber que estava com o nome sujo quando fui abrir cartão numa loja e foi negado, agora só consigo quando resolver essa pendência”, contou.

O caso de Vera não é isolado. A expansão do crédito e a falta de habilidade na hora de usá-lo contribuíram para o crescimento dos inadimplentes não só na capital, como também em Pernambuco, que alcançou alta de 2,9%, e na região Nordeste, com média de 5,9%. Essas taxas estão na contramão do comportamento médio observado no País que, neste mesmo período, teve queda de 1,3%. “Esse aumento está relacionado tanto com a expansão do crédito quanto à pouca experiência no uso do crédito, fenômeno que começou no Sul e Sudeste do Brasil, vem se espalhando pelo Norte e Nordeste, e é bem possível que ocorra futuramente no Centro-Oeste. À medida que o fluxo de crédito for se equilibrando, a tendência é que esses números sejam mais próximos da média nacional, o que pode acontecer até o final do ano”, apontou Flavio Calife.

Perfil do inadimplente

De acordo com o último levantamento da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), feito em abril deste ano, a maioria dos inadimplentes recifenses são homens (52,1%), entre 21 e 40 anos (67%), possuem ensino médio completo ou incompleto (63%) e renda familiar mensal de um a três salários mínimos (68%).

É bem nesta descrição que está o vendedor ambulante Joseílton Eugênio da Silva, 28 anos, que está no SPC por conta de uma dívida de R$ 105. “Eu comprei umas roupas usando o cartão da loja, só que fiquei uns tempos doente e não consegui trabalhar, aí não tive dinheiro para pagar a conta. Vou tentar agora negociar o valor para quitar isso”, disse.

A pesquisa revala que os cartões de crédito e de loja são maiores causadores de débitos. Somados, correspondem a 43% dos tipos de dívida. “Hoje, o cartão é o grande vilão do crédito, por conta dos juros altos, e ele provoca essa distorção, a pessoa pensa que tem dinheiro, mas não tem”, explicou o diretor executivo da CDL, Fred Leal. As prestadoras de serviços e financeiras são a terceira e quarta origens mais recorrentes de inadimplência, com 14% e 11%, respectivamente.

O professor de história Alexandre Félix está confiante que vai quitar o débito de uma conta de luz e o financiamento estudantil atrasados ainda este ano. “Estou próximo de fechar um acordo e vou usar o meu 13° para pagar as dívidas e sair do SPC”, comentou.

O economista da Boa Vista Serviço destacou por que é importante conhecer os indicadores da inadimplência. “Eles refletem a capacidade de pagamento, a saúde financeira dos consumidores, e isso tem efeitos sobre o comércio e os bancos. Eles querem saber quem está pagando, e isso afeta a relação de consumo e crédito, até porque quem está inadimplente não consegue obter crédito, porque o nome está sujo.”

Conta inflacionada

A CDL mostrou também que a inflação tem alterado a relação de consumo dos negativados – 83% deles afirmaram haver percebido aumento dos preços de alimentos, bebidas, habitação e despesas pessoais. Trinta e dois por cento dos entrevistados afirmaram ter diminuído o consumo de bens básicos por causa dos preços mais salgados e 24% decidiram substituir produtos por marcas mais baratas ou cortar os supérfluos.

Já 15% optaram por deixar de realizar algum pagamento para manter o mesmo nível de consumo, culminando na inadimplência, enquanto que 4% se endividaram, entrando no rotativo do cartão de crédito. Dentre os consumidores que tentaram driblar o aumento de preços para manter as contas em dia, 25% buscaram fontes de renda extra, 10% empréstimos bancários, 7% reservas da poupança e 4% cheque especial. “E a inflação tem aumentado, principalmente na área de serviços, como cabelereiros, lavanderias. Acho que o nível do consumo vai apertar ainda mais para quem ganha menos, porém, os consumidores têm conseguido segurar as compras”, disse Leal.

Fonte: G1 – PE