Há algum tempo, José não dorme tranquilo. Ele não está dando conta de pagar as dívidas que contraiu quando ficou desempregado.

Descobriu, do jeito mais difícil, como faz falta não ter uma reserva financeira para enfrentar imprevistos.

Não controlou as despesas, e o resultado não poderia ser outro: pagou somente a parcela mínima do cartão de crédito, entrou no cheque especial e atrasou o financiamento do carro.

Como o novo emprego demorou mais do que ele esperava, tomou empréstimo no banco e acumulou dívidas de sete vezes o seu salário.

Seu irmão percebeu mudanças no seu comportamento e puxou conversa para saber o que estava acontecendo e como podia ajudar.

Quando se inteirou do problema, ajudou José a organizar as informações e apurar o saldo devedor em cada instituição financeira e os juros de cada operação.

Tratou de acalmar o irmão orientando os próximos passos: renegociar a dívida com os credores. Eles, parte interessada, teriam de ajudar José a resolver o problema.

Como? Aumentando o prazo de pagamento e diminuindo os juros cobrados. 

José, por sua vez, organizou muito bem o controle de seu fluxo de caixa para definir o limite que seu orçamento comporta. Ele passou a se sentir preparado para essa negociação com os credores depois que entendeu que eles têm todo o interesse de ajudá-lo a encontrar uma saída: melhor receber menos do que nada!

Dados do Banco Central demonstram que existem muitos Josés e Marias que renegociam os débitos vencidos e conseguem reduzir os juros.

O montante de créditos renegociados por pessoas físicas foi de R$ 21,76 bilhões em junho, com avanço de 17,6% no acumulado em 12 meses, superando o crescimento de novos créditos concedidos nesse segmento.

O nível de inadimplência preocupa os bancos e as autoridades. Conforme estatística do Banco Central, em junho deste ano cerca de 25% das operações de crédito renegociadas estão com atraso superior a 90 dias.

No meu entendimento, esse elevado índice de reincidência no calote se deve à falta de planejamento financeiro. Não adianta renegociar a dívida, conseguir mais prazo e menos juros se o orçamento do devedor não for ajustado para acomodar esse compromisso.

VALE A PENA 

Muita gente está deixando o problema se agravar antes de chamar o credor para uma boa conversa.

O estoque de dívidas de pessoas físicas não pagas há mais de 90 dias ultrapassa R$ 57 bilhões, deixando claro o potencial para renegociações.

Na maioria dos casos, vale muito a pena renegociar. Em junho, o prazo médio das dívidas renegociadas aumentou de 28,7 meses, no ano anterior, para 34,8 meses.

A taxa de juros registrou queda significativa. Há dois anos, a taxa média das operações de renegociação era de 61,6% ao ano. Em junho deste ano, de 36,6% ao ano.

Se você tem dívida para renegociar, se prepare para oferecer um pagamento equivalente a no mínimo o valor da primeira prestação, o que demonstra o seu comprometimento com a solução do problema.

“Dar um tempo” para a retomada dos pagamentos é um benefício que as instituições financeiras estão deixando de negociar.

Oferecer garantia real, um carro, por exemplo, é uma condição que certamente contribuirá ainda mais para a redução dos juros da operação.

A garantia diminui o risco da instituição financeira, que agora tem um bem para executar em caso de calote. Risco menor, juros mais baixos: é assim que funciona.

PREVENÇÃO 

Seja previdente e não espere o problema se agravar. Se você está utilizando praticamente todo o limite do cheque especial ou parte dele por mais de 30 dias, agende uma reunião com seu credor para trocar a modalidade de crédito por outra mais barata.

Se você não fizer isso espontaneamente, há grande chance de o seu credor tomar essa iniciativa diante do sinal de inadimplência à vista!

PAGUE À VISTA 

Analise com carinho a possibilidade de vender algum bem e fazer caixa para quitar a dívida atrasada de uma vez só. O desconto que as instituições financeiras estão dispostas a dar nesses casos é muito generoso e pode variar de 60% a 90% do valor da dívida.

ESTRATÉGIA 

Você gostaria de começar de novo e resolver seu problema de uma vez por todas? Vender o carro é uma estratégia que não costuma falhar.

Além de gerar caixa para quitar ou reduzir suas dívidas, sua despesa mensal vai cair bastante, abrindo espaço para um novo planejamento financeiro.

Se você ainda não calculou quanto custa manter o seu carro, incluindo na conta as despesas anuais de IPVA (imposto), seguro e manutenção, calcule. Passar alguns meses sem carro pode ser a luz no fim do túnel que você procura.

MARCIA DESSEN, Certified Financial Planner, é sócia do BMI (Brazilian Management Institute), professora convidada da Fundação Dom Cabral e diretora do Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros. É autora do livro “Cuide Bem do seu Dinheiro” (Editora Pearson, 2013). 

Fonte: Folha de São Paulo