Depois de forçar bancos a oferecer empréstimo mais barato, o governo resolveu comprar briga também com as operadoras de cartões. Enquanto a taxa básica da economia está em 7,5% ao ano, essas empresas cobram, em média, inacreditáveis 10,5% ao mês.

O Palácio do Planalto já elegeu o próximo alvo da cruzada pelos juros baixos: o setor de cartão de crédito, que cobra taxas de até 600% ao ano. O ataque aos abusos cometidos por bancos e administradoras foi um dos destaques do pronunciamento feito pela presidente Dilma Rousseff na noite de 06/07/2012. Ela avisou que não “descansará” enquanto os encargos não caírem “para níveis civilizados”, o que implicará na redução dos ganhos das instituições financeiras. “Sei que não é uma luta fácil, mas garanto a vocês que não descansarei enquanto não ver isso se tornar realidade”. De cada 100 famílias com dívidas no país, 74% estão penduradas no cartão de crédito e 30%, inadimplentes.

A bronca da presidente tem justificativa. Além de a taxa básica de juros (Selic) estar no menor nível da história, 7,5% ao ano, das seis linhas de empréstimos mais utilizadas pelo consumidor, os cartões foram os únicos que mantiveram inalteradas as suas taxas médias desde julho de 2011. Ao mês, o custo está em 10,69%, segundo a Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac). Essa estatística endossa outra pesquisa, da Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (Proteste). O Brasil tem a maior taxa de cartões entre países da América Latina: 323,1%, 11 vezes mais do que os 29,2% registrados na Colômbia.

O economista do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) Nelson Barrizzelli não se surpreende com os juros cobrados pelas operadoras brasileiras. Ele considera os cartões e o cheque especial os maiores vilões para o consumidor. E exemplifica isso com o episódio de um empresário que, 18 meses após negociar a exclusividade no recebimento de salários de 3 mil funcionários, perdeu 20% da força de trabalho porque eles não conseguiam mais pagar as dívidas na duas modalidades de crédito. “Eles pediram dispensa para receber a indenização e acertar as dívidas. Todos estavam no vermelho”, disse.

Caixa e BB

Sensível a situações como essa, a presidente Dilma Rousseff determinou que os bancos estatais liderem novamente o movimento de baixa nas taxas do cartão. Foi o que aconteceu na última quinta-feira, horas antes do pronunciamento da presidente em cadeia nacional, quando o Banco do Brasil (BB) e a Caixa Econômica Federal anunciaram a redução nos encargos. Na Caixa, o parcelamento de faturas ficará até 36,87% mais barato, enquanto no BB a queda será de 30% para os cartões Ourocard. Também haverá recuo na taxa do crédito rotativo, justamente no qual os encargos são mais abusivos.

A Caixa derrubou em 52% os juros cobrados nessa linha, para 5,65% ao mês. Com isso, acobrança anual será de 95,17%. Já o BB manteve as condições para o rotativo praticadas desde o seu último corte, em abril. Os correntistas que optarem por receber o salário por meio do banco terão diminuição de até 79% nas taxas. Dessa forma, as taxas, que variavam entre 3,87% a 13,7% ao mês, caíram para um intervalo entre 2,88% e 5,70% mensais.

As reduções são parte da estratégia do Palácio do Planalto para pressionar os bancos privados a reduzirem suas margens de lucro. E a medida vem sendo bem-sucedida até aqui. Entre julho de 2011 e o mesmo mês de 2012, cinco das seis principais linhas de crédito ao consumidor registraram queda de juros (veja quadro). O único foco de resistência tem sido, de fato, o cartão de crédito. Por isso a ira da presidente. “Confesso que ainda não estou satisfeita (com as quedas de juros) porque os bancos, as financeiras, e, de forma muito especial, os cartões de crédito podem reduzir ainda mais as taxas cobradas ao consumidor final”, disse.

Fonte: Correio Braziliense