
As últimas semanas foram férteis em análises e opiniões sobre crédito bancário no Brasil. Pode-se ouvir ” e ler ” de tudo um pouco. Fez falta, contudo, a menção a conceito fundamental, que define a eficiência do mercado de crédito: o conceito de informação. Falou-se de cadastro positivo, que está em fase final de regulamentação pelo governo, mas vale a oportunidade de explorar um pouco mais o tema.
Por definição, a relação entre tomadores e credores padece de um problema estrutural: o credor nunca saberá tanto quanto o devedor sobre as reais condições (e intenções) de pagar a dívida contratada. É o que a literatura chama de “assimetria de informação”. Ou seja, nessa relação, há um desbalanceamento estrutural, com uma parte mais informada que a outra. Isso é inerente à relação de crédito.
Um dos papéis dos bancos é justamente reduzir os impactos dessa assimetria sobre o mercado por meio de mecanismos de avaliação e diversificação de riscos que permitem que a intermediação financeira exista em níveis que individualmente não seriam possíveis. Mas se essa assimetria for grande a ponto de inviabilizar a correta estimação do risco, o resultado é pouco crédito ou crédito muito caro. Em outras palavras, a taxa de juros, para fazer frente às incertezas envolvidas na estimação dos riscos, será muito alta ou, no limite, o crédito será recusado. Bons pagadores aqui pagam pelos maus que não são corretamente identificados na partida.
A contrapartida é que, em ambientes onde há disponibilidade de informação, a assimetria é menor, permitindo melhor avaliação do risco de cada tomador. Com isso, o credor tem acesso de forma mais precisa à capacidade de pagamento da outra parte, permitindo a diferenciação e o apreçamento adequado de bons e de maus tomadores.
A relação fundamental é direta: quanto maior o volume e melhor a qualidade da informação disponível, mais desenvolvido será o mercado de crédito. Evita-se que os bons clientes sejam tratados sem diferenciação e permite-se que tomadores que, por falta de informação, estavam fora do mercado, passem a ter acesso a crédito.
Mas o conceito de informação é amplo. Do ponto de vista macro, a estabilidade de preços; a previsibilidade das trajetórias de câmbio e juros; a correta visão dos custos; a evolução positiva do mercado de trabalho são todos exemplos de informações relevantes que geram precisão na estimação do risco de crédito.
Adicionalmente, estabilidade de regras; validade das garantias; boas regras de resolução de conflitos, enfim, instituições que garantam a validade dos contratos, geram previsibilidade na estimação das perdas e, da mesma forma, reduzem a assimetria entre devedores e credores ao estabelecer claramente o que poderá acontecer se tudo der errado. Ou seja, se o devedor decidir pelo não pagamento da dívida.
Há também a dimensão individual que influencia diretamente o risco e a capacidade de avaliá-lo corretamente. Quanto maior o volume e a qualidade de informações disponíveis sobre o tomador, maior a precisão do credor na avaliação do risco da operação. Aqui se consideram os dados individuais que se traduzem no histórico de pagamentos do cliente. A informação que o cliente já tomou crédito e pagou assim como a informação do seu endividamento permite que se avaliem melhor as condições de assumir novas dívidas e também a capacidade de honrá-las.
Dessa forma, tendo mais informação, consegue-se diferenciar dois indivíduos ou empresas aparentemente iguais e, consequentemente, decidir pelo crédito e precificar cada um deles de forma adequada. A regulamentação dos registros de informação de crédito no Brasil, os cadastros positivos, tem esse importante papel. Trata-se de bancos de dados com informações do histórico de crédito de indivíduos e empresas e não só com informações de não pagamento como temos hoje.
Os benefícios se traduzem de diversas formas: desincentiva-se o superendividamento e estimula-se a disciplina; reduz a inadimplência voluntária e aumenta a competição bancária, pois os bons tomadores passam a ser conhecidos pelos diversos bancos e não só pelo seu. E o principal: os bancos podem diferenciar bons de maus pagadores, o que permite reduzir inadimplência, reduzir juros e conceder mais crédito a quem pode se endividar.
Por meio desses canais, o cadastro positivo reduz as distorções inerentes à falta de informação e permite que o crédito no Brasil continue se expandindo de forma saudável, abrindo espaço para reduções sustentáveis no custo dos empréstimos.
Fonte: Correio Braziliense